sábado, 1 de dezembro de 2012

Réptil

(Dudu Costa)

Hoje dei pra arrancar você do meu coração
tipo: - Pá-pum!
Bicuda certeiramente endereçada.
Eu, tipo, te mandei pro caralho, sabe?
E foi bom...
Foi muito bom ver você
(mera imagem mental)
ali no meio fio do meu desejo incontido
agonizando
suplicando como num samba
apaixonado de Cartola.

Naquele meio fio
desfiei versos odiosos,
cheios de dor,
que escorreram como juras liquefeitas
na tua página do facebook.
Sim, eu postei toda a minha raiva
no teu perfil transfigurado
por minha memória atormentada
e uivei triunfante à primeira lua
que vi na tela do espaço noturno.

Na calçada suja
na escuridão do asfalto
eu te amei...
Pela última vez
naquele eterno segundo
eu te amei.
De repente
raptando-te, serpentemente!

Naquele meio fio.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Crisântemo

(Dudu Costa)

O Rio era chuva morena
o morro molhado, nem se sabia a maré

Água saída, água chegada
Repetia-se o céu da tarde aguaceira

Era chuva, salgada, de corte afiado
Que nem ferradura espantava

O céu havia criado gotas eternas:
- devoravam corações incautos

Morei nos olhos dela por encantamento
e também as horas se perderam

Tempestade, tempo irreal,
mero percurso da Terra ao redor da estrela amarela

Seu nome ecoava na cabeceira das minhas montanhas
Paroxítona palavra, flor pequenina

Do interior soava a voz que eu ouvia:
cordas banhadas de ouro branco e neblina

Naquela noite alva, sua pálpebra se cercava de lembranças
e os desejos voavam aonde só pode o espírito das aves

O Rio era chuva passante, ela o lugar da minha vontade,
o sol que explode quando um crisântemo destrona o anoitecer.




segunda-feira, 14 de maio de 2012

Arquitetura

(Dudu Costa)

Quando sonho os edifícios
A concreta criatura
Cria em mim seus precipícios
A mais funda formosura

Canto um verso de coluna
Feita a sílaba e fissura
Brotam casas sobre a duna
No deserto a agricultura

O meu corpo é sua planta
Onde a pena faz pintura
Sobre os altiplanos canta
Curvilínea arquitetura

A morada da loucura
Faz projeto nos meus planos
Esquadrinha a estrutura
Alvorece o novo engano

Pode a onda que ressoa
Libertar da escravatura?
Pois o chão que habito voa
Nasce assim uma outra jura

terça-feira, 17 de abril de 2012

Alquimia

(Dudu Costa)

A química que come e rói a sílaba
Moléculas da subjetividade
Contém em si o próton da vaidade
Espaço onde este humano amor desaba

Transmutação - essência da alquimia
Degenerescência surda do olfato
Injeta-me a fragrância que de fato
Omite o codinome: - Covardia!

Tento matar o ouro decassílabo
Com minha rima e vil vocabulário
Vou sabotando os versos que carrego

Pudera eu, este ego monossílabo,
Feito um poeta otário. Involuntário!
Ser e não ser na tempestade um cego

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Baquiana

(Dudu Costa)

Nas horas derramadas sobre nós
Viagem de nós dois sobre os instantes
Instala-se uma luta assaz feroz
Perdemo-nos: arroubos e rompantes.

Não sei se és inimiga ou doce amante
Que faz falar meu corpo com candura
E a disparar o fogo calcinante
Põe-se a lavrar meu sonho com loucura

Sou eu quem cura a sede do teu ventre
E vago entre as verdades do teu eixo
Se me abres tantas sendas pra que eu entre

Calamos nós segredos viajantes
Gravito em tua órbita e me deixo
Perder e achar em ti o amor bacante

sábado, 24 de março de 2012

O que éramos

(Dudu Costa)

O que éramos jaz num caderno branco
Momentos de um prazer desencarnado
E se a entrega faz-se à sombra de um fado
Devolvo o dharma ao drama - este amor franco

O que éramos jaz numa terna cama
Por entre cobertores e gemidos
E as juras feitas bem ao pé do ouvido
São fogo transmutado em branda chama

O que éramos jaz num fraterno abraço
No balançar de um tempo descontínuo
Não sei se me perduro em teu espaço

Ou faço ardor das dores que imagino
Já que o bater do peito é descompasso
É pássaro que canta um suave trino.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Por que não a Literatura?

(Dudu Costa)

A José Saramago
Por que não a literatura?
A transmutação da chuva em palavras
torrencialmente líquidas.
Jogos minimizadores da existência,
dores de uma existência livre
ou a presença decassílaba de uma paisagem
nunca dantes navegada.

A literatura,
lítera altura onde se maltratam os poetas,
de onde se jogam velhos escritores ateus,
é o mago ofício que sara o segredo da língua.

Quantos sentidos podem o paladar do poeta?
Com quantos parágrafos pode o escritor
causar a renascença?

quarta-feira, 21 de março de 2012

As aves

(Dudu Costa)

A Elis Linhalis Costa
Os pássaros escutaram teu choro metálico
Trouxeram do ar sementes de azul puro
e depositaram no teu colo pequenino.
Em tuas veias corre a chuva terrestre.

As estações repousaram cores no teu berço,
imenso território de dores e sonhos.
Nos desejos miúdos estabeleceu-se a brancura
Anseias por um mundo de paz e lactose.

Sugas a vida nos vales do colo materno
De suas montanhas ósseas obténs o calor e a defesa,
conchas e melodia marinha. De noite
mergulham as aves nos teus olhos de topázio e tempestade.

Velas

(Dudu Costa)

Nana neném
que, breve,
o tempo virá desmoronar-lhe
a firmeza da pele
e a solidez dos ossos,
cavando poços nos teus olhos bonitos.

Nana neném
que ontem não voltará
e amanhã você não sabe.
Ninguém toca o velo da horas.

Nana neném
que hoje recomeçamos
a reencontrar a delicadeza,
esperança largada
no vau dos segundos.

Nana neném
que é tempo
de não ocupar-se
com as velas içadas
pelo tempo.

Transbordante

(Dudu Costa)

Durante muitos anos
o mar torturou minhas noites,
rajadas de sal fustigavam minhas pedras
e me lavavam o limo das rochas.
Já não me lembro quantas ondas
açoitaram meu palato
e zurziram minhas metáforas líquidas.
O mar
furou meus anseios com sua insistência monossílaba
comendo, sórdido,
minhas mulheres e meus poemas mais febris.
Minhas manhãs
foram arremessadas ao azul negro
das crateras oceânicas,
tornei-me escravo de impérios e reinados minerais.
Acordava com o coração assaltado de algas,
inundado por baleias e cardumes
que jamais puderam abandonar
meu corpo totalmente,

meu corpo transbordantemente
água
do mar.

A chuva azul

(Dudu Costa)

A Elis Linhalis Costa

Acordarás antes que os galos libertem a manhã
das entranhas da noite.
No teu rosto pedaços de minha infância adormecida
legados à tua carne de estrelas,
sonhos descobertos em contagotas.
Ainda não ouso decifrar-te
do alto de minha sabedoria
atormentada de cosmogonias,
envaidecida na raiz
e nas pequenas folhas manchadas de amarelo.
Celebro o amor no teu umbigo curado,
nos teus pequenos pés sem estradas.

Semearei no teu sorriso a liberdade das primaveras temporãs,
tardes de sol e de lua surgindo e ressurgindo
no silêncio escondido
entre as batidas do teu peito,
na escuridão acalentada
das pálpebras fechadas.
Barcos, flores, nuvens
poemas descerão feito a chuva azul das aquarelas
e encontrarão abrigo no teu coração de pétala
anos a fio regado
pelos cansados dedos
de teu flamejante pai.